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Médicos alertam para a importância da ampliação do acesso ao tratamento do Lúpus, doença que acomete principalmente mulheres

A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) acaba de abrir consulta pública para incorporar tratamento para a Nefrite Lúpica, uma complicação do Lúpus que acomete os rins; sociedade pode participar para opinar

Por Karina Klinger

O Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES), mais conhecido como Lúpus, é uma doença autoimune e crônica, com maior incidência entre as mulheres, que pode atingir diversos órgãos e sistemas do corpo, incluindo os rins, causando a chamada Nefrite Lúpica2. Não há uma cura específica para o LES, mas atualmente, com o tratamento correto, pode-se atingir o controle adequado da doença3,4. Reumatologistas e nefrologistas destacam a importância do acompanhamento médico, bem como da não interrupção do tratamento para boa resposta e prevenção de danos graves5.

O Lúpus é uma doença autoimune. Nos pacientes com Lúpus, o sistema imune começa a produzir anticorpos e alguns mediadores inflamatórios que atacam o próprio organismo. Um dos órgãos que podem ser acometidos são os rins, que chamamos de Nefrite Lúpica. Neste caso, os pacientes apresentam anticorpos e substâncias inflamatórias que atacam as células dos rins, responsáveis por filtrar o sangue e formar a urina“, explica o Dr. Edgard Reis, CRM-SP 114511, professor Adjunto da Disciplina de Reumatologia da Escola Paulista de Medicina /Universidade Federal de São Paulo, Coordenador da Comissão de Lúpus da Sociedade Brasileira de Reumatologia (2020-2024) e membro do Grupo Latino-Americano para Estudo do Lúpus (Gladel).

O médico afirma que a Nefrite Lúpica causa um grande impacto na vida da pessoa com o Lúpus, pois a inflamação nos rins pode provocar inchaço nos pés e no corpo inteiro, aumentar a pressão arterial e a perda de proteína pela urina, além de outras possíveis complicações mais graves2. “Pode gerar, ainda, ao longo do tempo, uma perda do funcionamento dos rins, o que chamamos de insuficiência renal crônica”, acrescenta Dr. Edgard Reis.

A Nefrite Lúpica pode acometer cerca de 40% a 50% das pessoas com LES1,2. Por isso, é fundamental o acompanhamento de um profissional de saúde, bem como o diagnóstico precoce6.”Desta forma, podemos evitar um dano maior“, completa o reumatologista.

O especialista também chama atenção para a jornada dos pacientes. Segundo ele, além da questão do acesso ao tratamento, é necessário pensar no impacto da doença para as pessoas que enfrentam o LES e a Nefrite Lúpica, principalmente, pois essa última pode ser silenciosa e sem sintomas significativos em seu estágio inicial7.

Muitas vezes, o paciente já chega na primeira consulta com piora ou exacerbação da doença nos rins“. E acrescenta que há uma diferença de percepção entre as necessidades dos pacientes e o protocolo de tratamento sugerido pelo profissional de saúde. “Às vezes, nós médicos estamos muito preocupados com o exame de urina e a perda de proteína, o que é importante. O paciente, por outro lado, também se preocupa com o cansaço ou uma nova lesão de pele que apareceu. Então, acredito que a maneira de equalizar seja ouvir cada vez mais o paciente e suas demandas, compartilhar decisões e trazer o paciente para o centro do seu tratamento“, finaliza Dr. Edgard Reis.

Os impactos da Nefrite Lúpica

Os rins são órgãos fundamentais para o controle da pressão sanguínea, regular a formação do sangue e dos ossos, e equilibrar o balanço químico e de líquidos do organismo7. A partir do momento que o órgão não funciona mais da forma correta, o paciente pode se sentir mais cansado e com menos energia, estar com o apetite reduzido, dificuldade para dormir, estar com os pés e tornozelos inchados e apresentar inchaço ao redor dos olhos, especialmente pela manhã8.

Se você tem os rins comprometidos, eles vão perdendo a habilidade de ajustar o excesso ou falta de substâncias também“, comenta o nefrologista da Escola Paulista de Medicina/ Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Dr. Gabriel Montezuma.

A Nefrite Lúpica é detectada por exames laboratoriais, como os níveis de creatinina no sangue e proteína na urina7. Os sintomas do LES são diversos e variam em intensidade de acordo com a fase de atividade ou remissão da doença2. “Muitas vezes, aquela doença já está presente há meses, ou até mesmo anos. Algumas complicações, como a parada completa da função dos rins, com necessidade de hemodiálise, acontecem em 10% a 20% dos pacientes que têm Nefrite Lúpica não tratadas adequadamente“, detalha Dr. Montezuma.

O tratamento da Nefrite Lúpica é feito com imunossupressores e corticoide, que vão ajudar a reduzir o risco da inflamação renal2,9. Uma das principais metas da terapia é atingir remissão rápida da doença ativa9. Além disso, a terapia com imunobiológicos pode reduzir o risco do paciente com Nefrite Lúpica desenvolver doença renal crônica terminal, consequentemente diminuindo as chances de óbito por conta da doença10.

A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), responsável pela regulamentação do sistema privado de saúde, está com a Consulta Pública nº 132 – UAT 120 aberta para obter opiniões de pacientes, familiares, profissionais de saúde e sociedade em geral sobre a incorporação de um tratamento para a Nefrite Lúpica na lista de cobertura obrigatória dos planos de saúde. Contribuir é fundamental, pois significa ampliar o acesso ao tratamento do Lúpus com acometimento renal. Para participar, basta clicar no link: Link

Referências:

  1. Hanly JG, et al. The frequency and outcome of lupus nephritis: results from an international inception cohort study. Rheumatology 2016; 55: 252-262.
  2. SOCIEDADE BRASILEIRA DE REUMATOLOGIA. Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES) – Cartilha da SBR. Disponível em: https://www.reumatologia.org.br/orientacoes-ao-paciente/lupus-eritematoso-sistemico-les-cartilha-da-sbr/. Acesso em: 21 de fevereiro de 2024.
  3. KAUL A, et al. Systemic lupus erythematosus. Nat Rev Dis Primers. 2016;2:16039.
  4. PARODIS I, Studenic P. Patient-Reported Outcomes in Systemic Lupus Erythematosus. Can Lupus Patients Take the Driver’s Seat in Their Disease Monitoring? J Clin Med. 2022;11(2):340.
  5. van Vollenhoven, RF. et al. Treat-to-target in systemic lupus erythematosus: recommendations from an international task force. Ann Rheum Dis 2014; 73: 958–967.
  6. FANOURIAKIS, A. et al. EULAR recommendations for the management of systemic lupus erythematosus: 2023 update. Ann Rheum Dis 2024; 83:15–29.
  7. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Seus rins estão saudáveis? Saiba o que é a doença renal crônica e como preveni-la. Disponível em: Link Acesso em 29 de fevereiro de 2024.
  8. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Insuficiência renal crônica. Disponível em: Link. Acesso em 4 de março de 2024.
  9. Anders HJ, et al. Lupus Nephritis. Nat Rev Dis Primers. 2020;6(1):7.
  10. FURIE R, et al. Two-Year, Randomized, Controlled Trial of Belimumab in Lupus Nephritis. N ENGL J Med 2020;383:1117-28.

 

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