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A Videira e Seus Ramos

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Por J. C. Philpot (1802-1869)

Traduzido, Adaptado e 

Editado por Silvio Dutra

“Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o lavrador. Todo o ramo em mim, que não dá fruto, o tira; e limpa todo aquele que dá fruto, para que dê mais fruto.” (João 15.1,2)

Que noite solene foi aquela quando o Senhor da vida e da glória foi entregue nas mãos dos ímpios! Quando, antes de Judas vir traí-lo com um beijo, ele abriu como se fosse todo o seu coração, e contou os segredos do seu seio amoroso aos ouvidos de seus discípulos; quando ele lhes disse: “De agora em diante eu não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor, mas eu vos chamei amigos, pois tudo o que ouvi de meu Pai, eu vos fiz conhecer.”

Ele estava nesta solene temporada colocando diante deles tudo o que pudesse confortar seu espírito caído. “Não se inquiete o vosso coração”, diz ele, “creiam em Deus, creiam também em mim”. E se alguma vez houve uma época especial, em que o Senhor, durante sua morada na terra, administrou consolo espiritual aos que eram eternamente dele, devemos fixá-la como sendo aquela em que foi administrada por ele essa consolação às suas almas desconsoladas.

Mas, vemos que o Senhor não apenas lhes deu consolo naquela hora difícil, quando estava prestes a ser tirado deles e pregado na cruz, quando ia deixá-los, e retirar-lhes a sua presença corporal. Ele não se limitou a temas de consolo; mas acrescentou tópicos de instrução solene, e temas de aviso profundo. Isto mostra-nos que, por mais solene que seja a época de consolo divino em que um filho de Deus possa ser favorecido pelos lábios do Altíssimo, o Senhor cuidará de administrar instrução, repreensão e advertência juntamente com a consolação. De modo que o ministério do Evangelho não é um ministério puramente de consolação; mas, corresponde plenamente ao caráter que o Espírito Santo deu às Escrituras – que são “proveitosas para “doutrinar”, isto é, ensinar, repreender, corrigir, para instruir na justiça, para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente habilitado para toda boa obra. E isso coincide com o caráter que o apóstolo Paulo dá de sua própria pregação, onde diz: “recomendando-nos à consciência de cada homem à vista de Deus.”

É, então, um completo erro quanto ao que seja o ministério do Evangelho, pensar que os únicos tópicos do Evangelho são os de consolação para o povo de Deus. Essa é uma visão míope e mal dirigida do que é a ministração do Espírito. Encontramos o Senhor, no mesmo momento em que ele estava derramando consolo nos corações conturbados de seus seguidores, colocando diante deles uma advertência terrível: “Todo ramo em mim que não dá fruto, tira-o, e todo ramo que dá fruto, o limpa, para que produza mais fruto”. E se o Senhor da vida e da glória apresentou aos seus seguidores instrução e advertência nesta época solene, prova-se, evidentemente, que é uma parte do ministério do Espírito empregar tais tópicos e assim dividir corretamente a Palavra da verdade, “Para tirar o precioso do vil”, e para separar o limpo do impuro.

“Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o lavrador. Todo o ramo em mim, que não dá fruto, o tira; e limpa todo aquele que dá fruto, para que dê mais fruto.”  Sem fazer quaisquer divisões formais do texto, com a bênção de Deus, procurarei percorrer os tópicos que estão ali alojados para a instrução do povo de Deus, até onde o Senhor o Espírito me levou a ter qualquer conhecimento deles, e na medida em que ele me dará “uma porta de expressão” para expor o seu significado perante vocês.

“Eu sou a videira verdadeira.” Aparece em outras partes da Escritura que havia na terra da Judéia plantas que tinham a aparência da videira, mas que eram de natureza venenosa e deletéria. Temos um exemplo notável disso no segundo livro de Reis 4:39, onde “um deles saiu ao campo a fim de apanhar ervas, e achando uma parra brava, colheu dela a sua capa cheia de colocíntidas e, voltando, cortou-as na panela do caldo, não sabendo o que era.” Ele não sabia que eram venenosos e prejudiciais; mas os que estavam mais familiarizados com a planta gritaram: “Há morte na panela”. Aqui, então, havia uma planta, que tinha uma grande semelhança com a videira – uma semelhança tão grande a ponto de enganar este filho dos profetas. Há, portanto, muitos ensinos nas palavras: “Eu sou a videira verdadeira”, ao contrário das videiras falsas, das videiras venenosas e deletérias.

Temos uma alusão a isso no Livro de Deuteronômio, onde lemos: “Porque a sua vinha é da vinha de Sodoma e dos campos de Gomorra; as suas uvas são uvas venenosas, seus cachos são amargos.” (Dt 32:32); sem dúvida, aludindo a esta videira venenosa, que cresceu na terra da Judéia. Encontramos também o Senhor em Isaías 5: 2, dizendo a seu povo que tinha “plantado uma vinha com a mais seleta videira”, mas quando “buscou que produzisse uvas, produzia uvas selvagens”. Isto é, em vez de dar o verdadeiro fruto, ela deu frutos como os que eu tenho descrito – “a videira de Sodoma” e “uvas amargas”. Tinha ocorrido, como lemos em Jeremias 2:21, “Todavia eu mesmo te plantei como vide excelente, uma semente inteiramente fiel; como, pois, te tornaste para mim uma planta degenerada, de vida estranha?” Há muito significado, então, expresso nas palavras: “Eu sou a videira verdadeira”, o que implica que, por mais próximos que quaisquer falsos Cristos possam se aproximar do Cristo de Deus, contudo, ele e somente ele  “é a verdadeira Vide”, de quem todos os ramos vivos crescem, e é a única videira que a própria mão de Deus plantou.

Agora, desta “videira verdadeira” é dito ter “ramos”. E há duas descrições de ramos, que se diz estar nela. Um tipo está nela por profissão; outro conjunto de ramos está nela pela realidade. Não devemos, por um momento, supor que aqueles ramos que o jardineiro “tira” fossem ramos vivos da videira verdadeira, que tivessem uma eterna união com Cristo, aqueles que foram redimidos pelo sangue de Cristo para sempre, ou que vieram a estar em Cristo, antes mesmo da fundação do mundo; senão aqueles que estavam nele nominalmente – nele por mera profissão. E o Senhor parece tomar esta base ampla de sua profissão, adota sua própria linguagem e fala deles, não como se eles estivessem realmente buscando a Sua presença de coração, mas como aquilo que professavam ser (cristãos); e assim enquadra sua linguagem, não de acordo com a realidade, mas com a aparência das coisas. De modo que há ramos professantes em Cristo, que têm uma mera união nominal com ele; que dizem pertencer a ele, e ainda não dão fruto; e como não dão fruto, o jardineiro “tira-os”, os tira da sua posição, os arranca da posição em que se colocaram e os joga fora, para que todos vejam a sua vergonha.

Mas quais são esses “frutos” que alguns ramos dão, e outros não? Antes de podermos descrever o estado desses ramos que não dão fruto, devemos ter um pouco de visão sobre o que são esses frutos, cuja deficiência faz com que o jardineiro estique a mão e os tire.

Esses “frutos”, então, parecem ser, em sua maioria, frutos interiores; e temos uma lista de alguns deles na epístola aos Gálatas 5:22, onde lemos que “o fruto do Espírito é: o amor, o gozo, a paz, a longanimidade, a benignidade, a bondade, a fidelidade, a mansidão, o domínio próprio”. É a ausência, então, principalmente destes frutos interiores, que o jardineiro encontra nestes ramos nominais; e a ausência desses frutos faz com que ele tire esses ramos.

1. Agora, desses frutos, a sinceridade, a retidão e a integridade do coração diante de Deus é um fruto interior, que o Senhor procura nos ramos que professam crescer desta videira espiritual. Onde não houver um princípio de retidão espiritual implantado na alma, devemos dizer que o homem está radicalmente errado. Não estou falando aqui da retidão mundana, da integridade natural, da honestidade moral, da sinceridade carnal; mas eu estou falando de um princípio de integridade espiritual, pelo qual o coração é feito reto diante do Senhor, pelo qual há “alguma coisa boa” como a Escritura fala”, para o Senhor Deus de Israel”. Agora, onde esse princípio de integridade espiritual está ausente aos olhos do Deus que busca o coração, ele demonstra a morte no ramo.

Mas, como é que um homem pode saber se ele possui este “fruto” de integridade espiritual? Se ele a possui, ela se manifestará em suas relações com Deus, e ela se manifestará em suas relações com o homem. Aquele que tem um princípio de integridade espiritual e retidão de coração diante de Deus, virá diante dele como um Deus do qual não se deve escarnecer, e abrirá toda a sua alma diante dele como um Jeová que prova seus pensamentos e busca o seu coração, que conhece cada movimento secreto de sua alma diante dele, e as câmaras de cujo seio ele  estendeu diante de seu olho penetrante. Então, aquele que tem integridade espiritual, terá aqueles sentimentos que o salmista teve no Salmo 139: 23,24 quando disse: ” Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me, e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho perverso, e guia-me pelo caminho eterno.”

Esta integridade espiritual e retidão diante de Deus está muito ligada ao temor divino; e, portanto, creio que um princípio de retidão espiritual está na raiz de toda religião verdadeira, de modo que, quando isso é deficiente, a vida é deficiente; quando a alma está errada ali, ela está completamente errada.

E como será manifestada em nossas abordagens a Deus, assim também será manifestada em nossa comunhão com a família de Deus e em nossas relações com o mundo em geral. Não haverá uma sala alta, quando acharmos que o lugar mais baixo é bom demais para nós; não haverá empenho em elevar-nos aos olhos do povo de Deus, quando sentirmos nosso coração como “um ninho de pássaros impuros”; não haverá um andar sobre os pilares da experiência de outro homem, nem um estar de pé sobre alguma alta torre doutrinária, no homem cujo coração é realmente reto e sincero diante de Deus. Ele estará diante dos filhos de Deus em suas cores verdadeiras, dizendo-lhes simplesmente o que sente ser, e odiando não só a hipocrisia, mas a aparência de hipocrisia; encontrando, sem dúvida, a ação dela em sua mente carnal, mas ainda sendo trazido à experiência do apóstolo – “O mal que eu não quero, esse eu faço.”

2. Ainda, a humildade espiritual é um fruto que cresce somente no jardim celestial, no jardim do Senhor, no plantio de sua mão direita; e onde a humildade espiritual é deficiente em um homem, a ausência desse fruto o carimba como um ramo nominal. O orgulho foi a ruína do homem; e o orgulho amaldiçoado, tem entrelaçado suas raízes com as fibras do coração do homem, de modo que nada além da remoção total da árvore pode erradicar para sempre este princípio amaldiçoado; mas há uma grande diferença entre a habitação do orgulho e o domínio do orgulho. O pecado sempre habitará em nós; mas o pecado não reinará e governará em um filho de Deus – “O pecado não terá domínio sobre vós, porque não estais debaixo da lei, mas sim da graça”. E é a graça que agora reina no coração do crente, e não mais o pecado.

Agora, onde há a ausência de humildade espiritual, há a ausência de vida espiritual. Mas, o que torna um homem humilde? Isto não está em se ter a linguagem da humildade da palavra de Deus, nem da boca dos santos; mas brota de se ter opiniões humilhantes de si mesmo, “de ver a luz na luz de Deus”, de contemplar a pureza e a perfeição daquele “com quem temos que lidar”, de ter uma descoberta espiritual do que é o pecado e sentir a carga e peso da culpa depositada sobre nossa consciência, de ser conduzido pelo Espírito a ver o que somos de fato, de modo que “abominemo-nos no pó e na cinza” diante de Deus.

3. O princípio da fé viva é outro “fruto”, um fruto interno, cuja ausência carimba um homem como um ramo nominal. Aquele que não tem fé está evidentemente morto no pecado; pois a comunicação da vida à alma ocorre ao mesmo tempo com a implantação da fé; e a fé é colocada na alma por alguma manifestação de Deus. Pois a fé é o olho da alma que vê Deus, o ouvido da alma que ouve a voz de Deus,  e a mão da alma que toma as manifestações que lhe são dadas pelo próprio Deus. Portanto, se a fé, a fé divina, a fé viva, a fé espiritual e sobrenatural faltam em um homem, falta o fruto divino, e ele é carimbado pela ausência deste fruto como um mero ramo morto, que está apenas nominalmente na videira viva.

Mas, alguém dirá: “não há filhos de Deus cheios de incredulidade, que têm muitas dúvidas e medos, que não podem ler claramente o seu interesse na salvação e que não podem dizer: “Meu Senhor e meu Deus?” Sem dúvida, há muitas almas vivas, que não têm um doce testemunho de seu interesse salvífico no amado, mas ainda assim têm fé. Não a fé em Jesus, para realizar seu interesse salvador nele; mas têm fé nas perfeições de Deus, têm fé na espiritualidade da lei de Deus, têm fé nas ameaças que Deus tem pronunciado contra os ímpios, têm fé na autoridade e certeza da Palavra de Deus e têm fé para acreditar que não há Salvador senão Jesus, e que esse Salvador deve ser revelado com poder a suas almas. E, portanto, embora não tenham a alegria da fé, nem a certeza da fé, nem o triunfo da fé, ainda assim eles têm a existência e a realidade da fé, agindo sobre coisas que são realidades eternas, embora não tenham paz e consolação em seus corações.

A fé lida com realidades – isto é, “a evidência das coisas não vistas”; e, portanto, lida com realidades. É como um homem que olha através de um vidro colorido; as coisas que ele olha serão matizadas com a cor do vidro. E para a fé exercida sobre as perfeições, os tremendos atributos, a santidade, a justiça, a majestade, a glória, a presença carinhosa de Jeová – a fé que vê Deus através desse meio não recebe consolo, nem testemunho abençoado, nem é livrada da escravidão. No entanto, ela vê as realidades eternas, apreende as realidades eternas e é espiritualmente afetada por aquelas realidades que são trazidas para casa pelo Espírito à consciência.

4. Ainda – a esperança é um “fruto” do Espírito; e a ausência de esperança, a completa ausência de esperança, sela a morte sobre aquele ramo nominal em que se encontra a ausência de toda esperança. Mas alguns dirão: “Não são os filhos de Deus muitas vezes mergulhados no desespero?” Não, não em desespero. Eles ficam muitas vezes muito perto dele, eles estão nas fronteiras do mesmo; pois este significa ausência total de esperança, mas nenhuma alma viva colocou o seu pé além da fronteira, de modo a entrar nas regiões de desespero. Se ele chegasse lá, não estaria mais na “terra dos vivos”; se alguma vez pôs o pé sobre a fronteira que separa a terra da esperança da terra do desespero, ele não estaria mais pedindo ao Senhor para salvar sua alma do mais baixo inferno, mas ele seria de repente dominado por aquelas torrentes que o levariam para uma perdição infinita.

O inferno é o lugar do desespero para a consciência do réprobo, antes de ser lançado naquelas chamas devoradoras. E, portanto, não há nenhum filho de Deus que tenha sido vivificado pelo Espírito, que não tenha algum grau de esperança que o impede de fazer naufrágio completamente. De modo que não vamos longe demais ao dizer que a ausência de esperança marca a morte de um homem.

5. Espiritualidade e celestialidade são “frutos” que o Senhor procura – ou melhor, que o Senhor trabalha, e quando trabalha, o encontra em ramos vivos. Isto é, às vezes há um levantamento e uma saída da alma para aquele de quem toda a graça procede. As coisas do tempo e do sentido não são o verdadeiro elemento do homem vivo; e embora tenha uma natureza semelhante a eles – sim, uma natureza básica que, se fosse permitida, se revolveria na lama como o porco sujo faz na poça – contudo há uma natureza nova nele comunicada pelo Espírito Santo, a qual se sente em casa apenas nas coisas celestiais, e seu prazer se encontra apenas nas coisas espirituais.

Então, a total ausência de espiritualidade – a total falta de uma natureza que pode receber, perceber, provar, sentir e lidar com as coisas de Deus, demonstra que um homem está “morto em delitos e pecados”. Eu sei que estou desenhando uma linha muito estreita aqui, porque você vai dizer isso e há algo em mim dizendo isso durante todo o tempo: “pense naqueles pobres filhos de Deus que estão em suas primeiras convicções, pense naqueles que estão passando debaixo da vara da lei de Deus, e não se esqueça daqueles que são provados com terrores e temores, e são cortados em suas almas com profundas dores de culpa.” Oh! Não, amigos. Eu não iria colocar o peso do meu dedo mindinho para persegui-los; não, nem o peso de um cabelo da minha cabeça; mas, se o Senhor se agrada, seja isto usado como um instrumento para erguê-los, e não para ferir as suas ternas consciências, nem para trazer uma pontada de angústia às suas mentes aflitas.

Mas, eu apelo a vocês que estão em apuros de mente – você nunca sentiu uma comunhão e uma simpatia com coisas espirituais? Não há sentimento em sua alma, nem afeição em seu coração, que, você poderia apenas apreciá-lo, você poderia apenas ter uma manifestação abençoada disso, pois iria trazer a paz para você? Então, se a manifestação da misericórdia de Deus trouxer a paz à sua alma, você deve ter uma nova natureza para receber essas manifestações, porque elas não podem trazer a paz, exceto para um homem que tem uma natureza para compreendê-las, uma natureza para abraçá-las e uma natureza para apreciá-las. Portanto, não digam, embora por mais baixo que estejam afundando na miséria, não digam que nunca houve, em qualquer momento, em qualquer ocasião, uma centelha dessa vida oculta. Não desmintam totalmente os seus sentimentos; não se deixem cegar por tudo o que está passando no seu coração; não escrevam esta “coisa amarga” contra si mesmos, que nunca houve um único momento, desde que o Senhor primeiro os vivificou na vida – nem um momento em que houve uma ascensão espiritual de suas almas ao Senhor da vida e da glória, nem qualquer “fome e sede de justiça”, nem qualquer desejo pela manifestação de sua graça e glória.

Se você disser: “Não, nunca experimentei um anseio pela manifestação de Cristo, nunca derramei uma oração fervorosa nem um  gemido para que ele se revelasse a mim, nunca conheci um desejo de senti-lo precioso para a minha alma.”- diga isso, e direi que você está morto no pecado, ou envolto nas roupas de sepultura de uma profissão nominal; diga isso, e eu direi: “Sua consciência é cauterizada como com um ferro quente”. Não; estou convencido, por meio do sentimento da alma, de que, por mais profundo que um homem possa afundar na convicção, ainda assim está no fundo de tudo, erguendo-se no meio daquele mar de problemas – um princípio vivo, insaciável, que não pode ser satisfeito sem Cristo, que sai em saudade de petições a Cristo, que tem fome de sua justiça e só pode ser satisfeito com seu favor. E a ausência total disso marca um homem como morto no pecado.

Agora, então, aqui estão os ramos que “não dão frutos”. Eu ouso dizer que você observou frequentemente uma videira, que talvez cobriu um grande espaço de parede; e você já observou, que quanto mais a videira se espalha, menos ela carrega-se com frutos? As videiras que têm a maior quantidade de frutos são as mais podadas e as que cobrem o menor espaço. E assim esses “ramos” mortos parecerão muito verdes, terão uma grande quantidade de folhas, parecerão muito superiores aos ramos frutíferos; mas são estampados com esta marca – que eles não dão fruto.

Agora, estes ramos que não dão fruto “o jardineiro tira”; isto é, ele os remove do lugar que eles estavam ocupando. E como ele os remove? Por que, alguns ele remove pelo súbito golpe da morte; quando vier o tempo da vingança, quando tiverem “enchido a medida das suas iniquidades”. E isso tem sido frequentemente o caso de perseguidores e opressores da verdade de Deus. Assim, o Senhor “leva-os embora”, por alguns meios que levantam a mão da sua vingança contra eles.

Com outros o Senhor trata de uma maneira diferente. Como eu estava falando no último dia do Senhor, ele “seca a árvore verde”; o ramo fica murcho. Nunca houve seiva espiritual nele; mas mesmo o zelo natural seca, e todo o fervor é perdido. Assim, o ramo torna-se murcho e morto, e cai; isto é, não mais mantém seu lugar nominal na videira, não mais mantém uma profissão externa, mas cai como um ramo podre. Você que tem experiência de estar nas igrejas, você não viu isso acontecer na sua? Não pode, neste momento, lembrar-se de tal e tal membro, que uma vez floresceu em zelo, com grandes dons em oração, e foi em todas as ocasiões dar seu testemunho; e ele não caiu? Se você o observou, ele caiu talvez no socinianismo, na infidelidade, ou caiu em pecado aberto, e se afastou de você, ou você foi forçado a se afastar dele por causa de sua má conduta. Bem, então, o ramo é “tirado”.

E o jardineiro, o Pai, tira outros, deixando de impedi-los de praticarem as concupiscências de seus corações por barreiras providenciais, entregando-os a uma mente reprovável, de modo que eles cometem toda impureza com avidez; e então em um apaixonado desgosto eles jogam fora toda a religião. O remanso profundo do pecado em seu coração explode através dos portões de inundação, que até agora o retiveram; e se precipitam nos prazeres do mundo e nos desejos da carne. Satanás encontra as câmaras do palácio “varridas e decoradas”; e “ele toma sete demônios, e entra, e habita lá, e o último estado daquele homem é pior do que o primeiro”. E assim, em forma de julgamento, o Pai “os tira.”

Ou, mais do que isso; o Senhor pode “tirá-los” no momento em que a alma deixa o corpo; para que pareçam morrer em paz, e o Senhor reserva a sua “retirada” até aquele momento, quando a alma deixa o seu tabernáculo terrenal, e é lançada no lugar onde a esperança nunca chega.

Estes, então, são os ramos, na videira nominal, que o jardineiro “tira”.

Chegamos agora aos ramos, aos quais o Pai “limpa, para que produzam mais fruto”. Esses ramos vivos, então, que dão frutos verdadeiros, tendem a se tornar fracos e doentios, e assim precisam da mão limpadora do jardineiro. A palavra “purga” significa purificar ou limpar. E há várias maneiras de limpar ou purificar a videira.

Às vezes, o ramo fica incrustado com musgo, e o que é chamado de líquens. Ele é invadido com esses estrangeiros adventícios, que aparecem, impedindo que a seiva tenha um curso livre, e excluindo a influência da atmosfera, que torna o ramo doente e fraco. Como a cobiça e o mundanismo e os cuidados desta vida e a ansiedade pelas coisas de tempo e sentido, como este musgo rasteja em torno do coração de um homem! E como ele rasteja em torno de seu coração, como ele liga e aperta! O apóstolo realmente disse: “O amor ao dinheiro é a raiz de todo mal, o qual, e alguns nesta cobiça, caíram da fé e se transpassaram com muitas dores.”

Poderíamos esperar que, quando o Senhor abençoasse um homem com prosperidade, que isto abrisse seu coração; mas nós vemos isso? Não, quase sempre ele contrai o coração. Quando este musgo o rodeia, parece ligar a casca; e, ao apertar e contrair a casca, a seiva parece estar parada em sua circulação, para não fluir nele, para torná-lo “fecundo em toda boa palavra e obra”. Agora, o Senhor vê que alguns de seu povo estão recebendo este musgo ao redor deles; eles não dão fruto; os galhos estão ficando doentes; eles parecem murchos e encolhidos. O jardineiro observa isso, pois ele quer ver como sua videira está se desenvolvendo; “o amado vem ao seu jardim para comer seus frutos agradáveis.” E estende a sua mão, e tira o musgo. Não há outro remédio. Estava ligando a casca e parando a seiva vital. Ele remove então a prosperidade mundana; que estraga as perspectivas do homem na vida; e assim remove o que era prejudicial.

Às vezes, se olharmos para um ramo, veremos uma parte dele começando a inchar; um nó está se formando lá; e, à medida que incha, impede a circulação da seiva, e faz o ramo doentio e o fruto murchar. Agora, aqui está o orgulho no coração de um homem, que o faz inchar com ambição e presunção e autoexaltação e um desejo de ser algo. E quando este orgulho começa a se erguer e se dilatar, não só se dilata exteriormente, mas incha internamente; e como ele incha interiormente, é claro que há menos passagem para a seiva fluir. O orgulho não é meramente tal como pode ser visível no gesto exterior e no comportamento de um homem; é interior, e quando está no coração de um homem, ele o contrai, e parece parar a circulação da seiva viva em sua alma.

E qual é a cura para isso? Por que, a faca deve vir para podar este nó – para remover esse inchaço. Você é inchado em oração? A faca deve vir, e cortar seu lindo dom. Você tem uma boa memória das Escrituras? Você tem um bom julgamento das doutrinas da graça? Você deve chegar ao ponto de Efraim, e ser “quebrado em juízo”. Você está de alguma forma se exaltando secretamente entre o povo de Deus? Você deve ter a faca de convicções penetrantes passadas através deste seu orgulho, de modo a atravessá-lo internamente, bem como apará-lo por fora, e cortá-lo na medida certa. E assim há uma purificação do ramo, “para que possa produzir mais fruto”.

O ramo às vezes fica muito luxuriante; toda a sua força vai para as folhas e brotos, e a seiva não é tão condensada como para produzir frutos. Então, o jardineiro deve pegar a faca de podar e cortar as extremidades dos ramos. Oh! Ter a faca de poda, amigos! Ter nossa religião, ou o que pensávamos ser religião, podada e cortada até um toco; ter tudo o que pensávamos em nós mesmos que era de Deus sendo cortado pela mão desse jardineiro celestial, que sua própria existência parece ter desaparecido, e o que nós valorizamos está a nossos pés, cortado do ramo sobre o qual uma vez olhamos com prazer !

Vocês que têm examinado suas almas – vocês que sentiram a mão de Deus em vocês, nunca foram muito limpos e podados, naquilo que pensavam ser religião verdadeira? Vocês muitas vezes não estão se apoiando em noções e opiniões, e por provas dolorosas descobriram que essas antigas convicções foram limpas e podadas? Vocês muitas vezes não se debruçaram sobre alguma excitação carnal, alguma imaginação carnal, alguma visão superficial, alguma boa opinião dos outros sobre vocês, e encontraram em momentos solenes, quando as dores de angústia e culpa se apoderaram de vocês, que essas coisas foram cortadas, de modo que não poderiam tomar qualquer conforto delas; e você as olha e as vê sangrando no pó, e enfim ressequido, para que você mesmo diga: “Eles só estão aptos para o montículo de cinzas, para serem jogados fora como refugos da videira?” Você sabe pouco do que é ser um ramo frutífero, se você não tiver a faca de poda muitas vezes o cortando. Isto não é apenas uma época de poda e, em seguida, toda a poda feita é suspensa para sempre. A videira, de todas as árvores, precisa de mais poda; nunca produzirá frutos, até que seja bem cortada e completamente podada. E assim uma alma viva está continuamente empurrando para fora aqueles brotos luxuriantes, que necessitam ser cortados e podados, afastados pela mão do jardineiro celestial.

Agora, qual é o objeto de Deus nesses exercícios afiados, nessas poderosas tentações? Nessas convicções angustiantes? É fazer os galhos mais frutíferos. “Todo ramo que dá fruto, ele o poda”, não para destruí-lo, mas “para produzir mais fruto”. Então as aflições, as angústias, as convicções, os exercícios solenes e profundos da alma perante Deus, e o peso e o fardo das tentações atormentadoras, na mão de Deus faz com que o ramo dê mais fruto. Eles, na mão do Espírito, causam maior humildade; pois se um homem tem uma visão mais profunda e senso de si mesmo, ele será humilhado, quebrado, posto para baixo. O Espírito que opera por eles dará também ao homem mais integridade e retidão de coração diante de Deus. Sentindo o quanto de sua religião foi “pesada nos saldos, e achada em falta”, e quanto mais foi cortado pela faca aparentemente impiedosa, implacável do jardineiro, ele se torna capacitado a lembrar que “o conhecimento nada é, a opinião dos outros nada é, a membresia da igreja nada é , mas ter visto Cristo nesta passagem e Cristo nisso, é nada?” Diz ser para si mesmo – “porque, eu tenho provado isto,  é nada, levantar a minha alma em horas de tentação, e consolar em tempos amargos de angústia, é tudo uma ilusão? A religião está errada até o fundo? É radicalmente deficiente? Não é nada mais que a alegria do hipócrita, que é por um momento?” Essas indagações ansiosas produzem suspiros, gritos e gemidos e fervorosas orações e lutas porque o Senhor não nos permite ser hipócritas, mas nos torna sinceros e honestos de coração diante de sua presença.

Assim, novamente, a perda de toda esta religião carnal pela faca de podar de Deus, produz frutos não só diante de Deus, mas diante do homem. Pois isto funciona dessa maneira: o homem começa agora a ser mais fiel aos membros da igreja, com quem está conectado – mais honesto a todos com quem tem que lidar em assuntos espirituais. Ele diz: “oh, eu tenho sido tão enganado, pensei que eu era tão cristão, eu me julguei tão avançado na vida divina, mas, oh, como diferente eu me sinto agora. Oh, os sofrimentos que eu experimentei em um sentido de culpa e de ira! … oh, quão pouco sinto ter sido espiritualmente ensinado por Deus!

E então, sendo pesado em seus próprios sentimentos, ele começará a colocar outras pessoas na mesma escala. – você já sentiu isso? Ele começa a perguntar. “você já foi provado assim? O Senhor já o trouxe para baixo?” Ele agora não pode mascarar tudo sob um manto de amabilidade e tomar as coisas como garantidas, mas começa a procurar se outras pessoas estão sob o mesmo ensinamento solene. Este corte, então, torna-o não só honesto diante de Deus, mas fiel aos seus companheiros de fé.

Outra vez – a faca de podar é frequentemente o meio, na mão do Senhor, de acender nele um espírito de fervoroso derramamento de alma diante de Deus. Meus amigos, apelo à sua consciência. Onde estão suas orações em épocas de prosperidade? Onde estão os suspiros e gemidos de seu espírito, quando todas as coisas estão florescendo na vida temporal, e todas as coisas são suaves na vida espiritual? Que a consciência fale. Suas orações não são frias, sem vida, curtas e formais? Mas, quando você geme e suspira e clama ao Senhor? Quando você busca a comunhão abençoada com ele e sente que nada além de sua presença pode satisfazer, nada além de seu sangue pode expiar, e nada além de seu amor moribundo derramado em seu coração pode docilmente elevar sua alma para “a paz de Deus que excede todo o entendimento? ” Quando? Onde? Como?

Porque isto sucede quando você está sob provações solenes, experimentações profundas da alma, passando sob a vara da aliança de Deus, andando através dos fogos da tentação, vadeando através das águas da tribulação. Oh! Não é apenas cair de joelhos, e cumprimentar o Senhor com algumas palavras, por mais fluentemente pronunciadas; mas é o que está passando nas câmaras do coração – é o derramamento da própria alma diante dele. Isso é oração, e todo o resto é ilusão. E, assim, estes exercícios são, nas mãos do Espírito, o meio de acender em nós a súplica em um trono de graça, para as bênçãos que espiritualmente necessitamos.

Ainda – eles são tornados úteis também, nas mãos do Espírito, para nos tornar espirituais e celestiais. Onde você está – deixe a consciência honestamente falar – onde você está, quando o negócio floresce, quando os clientes aumentam, quando as coisas mundanas sorriem, e tudo exibe um aspecto agradável? Você é espiritual? Você é celestial? Você está clamando ao Senhor em algum canto secreto? Não! Você está folheando seus livros contábeis, calculando o interesse de seu dinheiro; seus olhos estão aqui e ali, procurando alterar alguma nova moda para atrair clientes para sua loja, ou, de alguma forma ou de outra – especular com sua imaginação sobre aquelas coisas que devem banquetear seu apetite carnal. Não é assim? Deixe a consciência honestamente falar em seu peito.

Agora, quando todas as coisas estão contra você, quando os ventos cortantes da adversidade sopram em seu rosto, quando tudo parece franzir a testa, e Deus acrescenta também a sua carranca, abaixando-se, por assim dizer, por detrás das coisas temporais, Repreendendo o aspecto dos eventos temporais, não há uma elevação de coração buscando por algo que não passará? Não há o alongamento de sua mão para segurar a substância, quando as sombras estão rapidamente desaparecendo? Não há algum suspiro da sua alma pelas coisas espirituais, quando as coisas temporais são todas cortadas de debaixo dos seus pés, e essa visão de paz e felicidade que você estava formando na sua mente carnal é toda arrancada, como a aparência ilusória de água no deserto? Então você se torna espiritual e de mente celestial.

Ainda – o Senhor trabalhando por esses exercícios – porque os próprios crentes não podem fazê-lo – muitas vezes fortalece e atrai a fé para se exercitar. Lemos sobre “a prova da nossa fé, que é muito mais preciosa do que o ouro que perece, embora seja provada com fogo”. Então a fé deve ser provada; se for ouro comprado do Senhor, deve ser “ouro provado no fogo”. Agora, estes exercícios, tentações, angústias, os poderosos cortes feitos pela mão do jardineiro celestial – provam a fé que o Senhor dá; e a fé sendo provada e colocada à sua máxima força, faz com que um homem comece a descobrir o que a fé realmente é.

Que graça maravilhosa é a fé! Quanto mais pesada a carga colocada sobre ela, mais a costa  da fé a suporta. Ninguém conhece o poder da fé, até que ele seja colocado em circunstâncias de dificuldade e de prova, que pressionam e sustentam este princípio vivo. Mas, este princípio vivo se levanta, como o “fermento escondido em três medidas de farinha”; “ele vive sob carga, embora amortecido, ele nunca morre.” E, assim, ela é atraída e convocada sob poderosas tentações, e torna-se assim fortalecida, trazida em toda a sua atividade e vigor vivo, e assim carrega o selo de ser a “fé sobrenatural e viva dos eleitos de Deus”.

A “purificação”, então, desses ramos frutíferos faz com que eles deem mais fruto. Não, na verdade, muitas vezes em nossos sentimentos;  somos senão muito pobres julgadores deste assunto. Quanto mais o ramo é carregado de frutos, mais ele se agarra à terra. É a árvore que não dá frutos – o álamo estéril – que sobe para o céu. A videira, carregada de frutos, não pode se erguer nas nuvens; ela precisa de apoio. Somos juízes muito imperfeitos sobre o que é o fruto. Aqueles que carregam mais, pensam que levam menos; aqueles que levam menos, pensam que são os que mais carregam. Onde encontraremos alguém que se orgulha tanto de fruto como o fariseu em sua justiça própria? Porque, ele está sempre pregando sobre o fruto, e nunca carrega uma só partícula dele para a glória de Deus. Mas, o pobre, carregado, de alma provada, que está se agachando com o peso das tentações – este ramo envergado está carregado de frutos, e quanto mais ele estiver carregado, mais ele vai se dobrar para o chão. Eles podem distinguir que estes são “os frutos do Espírito”, para a glória de Deus, que “trabalha nele tanto o querer quanto o efetuar, segundo a Sua boa vontade.”

Agora, quem são vocês? Vocês que professam as doutrinas da graça, quem são vocês? Há o seu destino; não de meus lábios pobres, fracos, mas da Palavra do Deus vivo. Leia sua sentença – ouça o seu destino. Se você é um ramo nominalmente na videira viva, que não dá qualquer fruto interno e externo, há sua sentença registrada. O jardineiro vai “levá-lo para longe”, lançá-lo sobre o montão de cinzas, e do montão de cinzas em chamas de perdição infinita. Mas, se você é um ramo que está dando fruto para a Sua honra, louvor e glória, ele vai “purgar você, para que você possa dar mais fruto”; e você brilhará no Reino de um dia sem fim.

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