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Automóvel: amigo ou vilão da mobilidade urbana?

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A mobilidade urbana é, definitivamente, o grande desafio das metrópoles contemporâneas em todas as partes do mundo. Durante o século passado vimos o automóvel se consolidar como uma solução ideal para a necessidade de transporte da época, chegando a se tornar o verdadeiro sonho de consumo popular. Hoje, porém, com o aumento desenfreado da frota de carros e o surgimento de problemas como excesso de trânsito e poluição, o cenário parece ser um pouco diferente. O automóvel já não é mais o mocinho da história.

As cidades estão, cada vez mais, se adaptando com base no que chamamos de integração modal – conceito que traduz a oferta de uma solução eficiente de circulação urbana, desenvolvida com base em diferentes modalidades de transporte (modais) interconectadas entre si. A partir desse conceito, não apenas algumas soluções coletivas tradicionais como ônibus e metrô ganharam ainda mais força, como também entraram em cena a facilitação e o incentivo a meios alternativos. É o caso da bicicleta, cujo uso vem sendo estimulado por meio do aumento no número de ciclovias e do surgimento de sistemas de bicicletas públicas, que podem ser emprestadas ou alugadas. Mas e os automóveis, como se encaixam nesse contexto?

O fato é que o mercado automobilístico encontra-se hoje em meio a uma verdadeira revolução. Se por um lado tecnologias como os carros elétricos e autônomos prometem proporcionar soluções infinitamente mais sustentáveis e confortáveis, por outro sistemas de carona e carros compartilhados também modificam a forma como as novas gerações utilizam este meio de transporte. Apesar de todas essas influencias e incertezas, uma coisa é certa sobre o futuro dos carros: eles não vão desaparecer. E, sabendo disso, é necessário estarmos devidamente preparados para conduzirmos o futuro das nossas frotas da melhor maneira possível.

Os carros serão sempre uma parte importante do sistema de mobilidade urbana e, na mesma velocidade com que novas tecnologias de transporte são desenvolvidas, as cidades precisam se preparar para recebê-las. No caso do automóvel, isso significa investir em uma infraestrutura que não apenas comporte a quantidade de carros atual como também seja segura e pouco invasiva para os pedestres. Na prática, isso significa enxergar os automóveis como mais um modal de transporte e integrá-los efetivamente à malha de transporte urbano.

A partir do momento em que estacionamentos são construídos junto a metrôs, por exemplo, com boa infraestrutura e custo acessível, o carro torna-se uma alternativa viável para conexão em percursos mais distantes. No caso de metrópoles como São Paulo, iniciativas como esta impactam diariamente milhares de pessoas, que conseguem agilizar o seu trajeto até o trabalho por meio da utilização do automóvel integrado com o transporte público (no caso da capital paulista, metrô, trem e ônibus).

Outro exemplo são os bolsões de estacionamento subterrâneos, um modelo bastante utilizado na Europa, mas ainda pouco explorado no Brasil. Basicamente, são garagens similares às que conhecemos hoje, porém completamente automatizadas e com monitoramento remoto por meio de câmeras para a segurança do cliente. Este modelo tem se mostrado uma solução eficaz para grandes centros justamente por ser prática, econômica e pouco invasiva aos pedestres, uma vez que sua superfície permanece livre para ocupação pública.

É fato que no Brasil ainda há muito trabalho a ser feito para conquistarmos uma mobilidade urbana realmente eficiente, de baixo custo e confortável. Os investimentos para isso são altos, e devem vir não apenas do poder público, mas também da iniciativa privada. Existe ainda muito espaço para a profissionalização da indústria de parking no Brasil, que está justamente no centro desse movimento e pode ser muito beneficiada a partir de investimentos corretos.

Um olhar atento para tendências e oportunidades de integração modal e automação pode, certamente, garantir a viabilidade de investimentos desse tipo. Na Europa, por exemplo, muitos estacionamentos automatizados já operam sem a presença física de funcionários, que atendem demandas de clientes através de centrais de controle remotas.

A automação também pode ser a chave para solucionar problemas comuns do dia a dia e que ajudam a sobrecarregar o trânsito, como a dificuldade de encontrar vagas em ruas de determinadas regiões, ou mesmo o desconforto das chamadas “zonas azuis”. Hoje já existem diversas tecnologias que possibilitam esse monitoramento em tempo real e indicam os melhores lugares para se estacionar, tornando o percurso muito mais assertivo – e, consequentemente, mais rápido. Isso sem contar os inúmeros benefícios gerados pelos aplicativos de trânsito e navegação, que aumentam a diversificação de fluxos e rotas.

Além de solucionar questões de trânsito, a tecnologia também garante maior conforto e comodidade aos usuários de carros. Podemos citar desde a compra on-line de vagas de estacionamento, que permite que o usuário se programe com antecedência, até o uso de aplicativos, que garante maior agilidade para localizar as garagens; ou mesmo a viabilização de tarifas dinâmicas e programas de fidelidade, que beneficiam clientes frequentes ou aqueles fora do horário de pico.

Se quisermos mesmo melhorar a nossa mobilidade urbana, precisamos olhar não apenas para a requalificação do transporte público, mas também para a ressignificação dos modelos privado e individual. Reduzir ruídos, poluição e custo, elevando conforto e agilidade de fluxo, é uma meta válida para todos os modais, sejam eles ônibus, metrôs, vans, carros, motos etc. E, para que essa meta seja cumprida, não podemos simplesmente ignorar a relevância dos automóveis dentro do nosso sistema. Precisamos, na verdade, incluí-los de forma estratégica.

 

Roberto Cerdeira é CEO do Grupo Pare Bem Estacionamentos.

Twitter: @estrelaguianews

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